Connect with us

História

Tesouro arqueológico de Itaipu entre possíveis perdas do Museu Nacional

Remanescentes humanos achados na Duna Grande indicam que, além de sambaquieiros, outros povos ocuparam litoral brasileiro na pré-história

Publicado há

no dia

Fósseis humanos foram encontrados em 2010, por um morador que passeava pela área com seu cachorro. Foto: Acervo do Museu Nacional / Divulgação
Com Diogo Reis

O que poderia terminar apenas como mais um osso na boca de um cachorro descobriu-se ser um tesouro histórico, mas que, agora, pode estar entre o acervo destruído pelo incêndio que atingiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, no dia 2 de setembro. Tratam-se de remanescentes humanos encontrados, em 2010, no Sítio Arqueológico Sambaqui Duna Grande, em Itaipu, os quais, segundo pesquisadores, indicam que outros povos, além dos sambaquieiros, podem ter ocupado o litoral brasileiro na pré-história.
Os esqueletos, que são de um homem com uma criança no colo e outras duas, foram achados por um morador local que passeava com seu cachorro pela área. A diretora do Museu de Arqueologia de Itaipu (MAI), Eunice Laroque, conta que o animal, teria farejado a ossada, e seu dono, ao perceber que eram fósseis humanos, comunicou à instituição.

A museóloga Eunice Laroque, diretora do MAI. Fotos: Thiago Freitas / AFI

Estes remanescentes encontrados revelam peculiaridades de uma cultura diferente dos povos dos sambaquis. A começar pela forma com que teriam sido sepultados, conforme explica a arqueóloga e professora do setor de antropologia biológica do Museu Nacional, Claudia Rodrigues Carvalho:
– Para nós é um achado particularmente interessante, por causa da forma com que foram sepultados. Isso levanta uma questão, uma hipótese de que eles não fossem exatamente grupos que a gente chama de sambaquis, o que pode mostrar que o litoral teve uma ocupação mais dinâmica do que imaginávamos.
Estudado desde sua descoberta, em 2010, o material ainda não teve seus exames de datação concluídos, mas acredita-se tanto na hipótese de ser de povos mais novos que os sambaquis – e que tenham ali convivido com eles, que são considerados os mais antigos habitantes das Américas – quanto na possibilidade de serem mais velhos. Neste caso, seria uma inversão da história.

A arqueóloga Claudia Carvalho ressalta  importância de se preservar área de interesse histórico  em Itaipu. Foto: Thiago Freitas/AFI

A arqueóloga Claudia Carvalho ressalta importância de se preservar área de interesse histórico
em Itaipu

– A importância deste remanescente, no entanto, não está apenas relacionada ao seu tempo, mas a tudo que ele pode revelar de uma cultura, de hábitos de vida que se diferenciam dos sambaquis. E isso ele já nos revela, provando a grande perda que pode ser sua destruição no incêndio do Museu Nacional – ressalta Claudia, lembrando que existem descobertas na região, especificamente no Sambaqui Camboinhas, com datação de cerca de oito mil anos.

Comunidade se une para manter a história viva

A presença do MAI é, além de tudo, um mantenedor da história caiçara viva na região. Com a iminente privatização dos museus com a PEC 850, a comunidade da Região Oceânica sente que a presença da instituição federal forma uma espécie de proteção à vila de pescadores que é visada pela especulação imobiliária.
– Itaipu é um continente! – diz o jornalista Luiz Pucu, emendando: – Cada cantinho daqui tem uma luta. Estamos sendo invadidos pela especulação imobiliária.
Manter a colônia de pescadores em seu lugar de origem, para a pesquisadora e professora do departamento de antropologia biológica do Museu Nacional é manter a história, literalmente viva. Ela explica que, apesar da pesca ser tratada como algo moderno pelo senso comum, esse costume é pré-histórico, inclusive na RO.
– O pescador é a história viva. Os sambaquieiros já eram pescadores. A pesca tinha papel fundamental na vida dos povos pré-históricos do litoral, como nos ensinam os remanescentes encontrados naquela região. É muito importante ter guardado esse tipo de conhecimento para que o povo se empodere da sua própria existência.

reunião comunitária no MAI mobiliza atores sociais contra PEC.

Reunião comunitária no MAI mobiliza atores sociais contra a PEC 850

Jornalista, fotógrafo e escritor, 36 anos. Trabalhou nos jornais EXTRA e O GLOBO, tendo atuado também nos principais jornais do interior fluminense, como FOLHA DA MANHÃ, FOLHA DOS LAGOS e A VOZ DA SERRA. É autor do livro "Opinião e Crime – A história da prisão do jornalista Avelino Ferreira", publicado em 2013 pela Marka Editora.

Folha Digital

Advertisement
Advertisement
Advertisement

Mais lidas