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Segurança

O medo que mora na boca do povo

Aumento da criminalidade e o medo dela tornaram-se o principal assunto entre moradores da Região Oceânica. Março de 2018 foi o mês recordista em número de roubos

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As peripécias de uma vida caiçara costumavam ser o tópico das conversas pela Região Oceânica. Com a escalada da violência, o medo virou rotina, e a criminalidade, o principal assunto num encontro de conterrâneos. Fato é que quem não foi assaltado conhece alguém próximo que tenha sido. A consequência disso é alteração de hábitos no dia a dia: horários e maneiras de se locomover, por exemplo, já não são mais a mesma. A razão deste temor coletivo pode, inclusive, ser contabilizada: o número de roubos na área da 81ª DP (Itaipu), onde são registradas as ocorrências policiais da Região Oceânica. De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), o número de roubos – 153 ao todo – no mês de março deste ano foi o mais alto desde 2003, quando esse tipo de estatística passou a ser feita.

Marcas de tiros em placa na Av. Irene Lopes Sodré. Números do ISP na área da 81ª DP reforçam motivos para preocupação da população. Foto: Thiago Freitas / AFI

Os dez meses mais violentos desses 15 anos também estão entre os anos de 2017 e 2018. Biênio que, mesmo incompleto, é responsável por 19,35% de todos os registros de roubo feitos na delegacia de Itaipu. Isso significa dizer que nos últimos 20 meses, foram comunicados quase o dobro da média de roubos na região.

Dez meses mais violentos dos últimos 15 anos estão no biênio de 2017 e 2018, que, mesmo incompleto, é responsável por 19,35% de todos os registros de roubo feitos na delegacia de Itaipu

Comerciante e morador da região há 20 anos, Celio Matias conta que já teve seu bar, no Bairro Peixoto, arrombado quatro vezes. Sua rotina teve que ser alterada por conta da insegurança. Para ele, o pôr do sol, agora, é um toque de recolher:
– Há muito tempo que eu não saio à noite com minha família. Fecho meu bar às 17h, quando a vizinhança também começa a baixar as portas – conta Celio.
Uma das 893 vítimas de assaltos registrados em 2018 é a manicure Hestefani Alves, de 26 anos. O trauma sofrido por ela tem endereço e horário certos: Rua Félix Gomes da Costa, em Piratininga, 11h. Até hoje ela evita o local do crime. A solução para não parar a rotina foi até saudável: a bicicleta.
– Me sinto mais segura pedalando. Acho que de bicicleta ando mais rápido, e ninguém vai me pegar. Agora, a pé não ando mais, desde o mês passado, quando fui roubada.
O sentimento de insegurança alimenta a desconfiança que silencia até o beijo. O pintor Humberto Junqueira, morador da Avenida Ewerton da Costa Xavier (antiga Central) há 25 anos, conta que prefere ser discreto para não chamar atenção de assaltantes, mas já foi vítima da própria discrição.
– As pessoas andam muito desconfiadas. Outro dia parei o carro no Vale Feliz para namorar. De repente, chegaram duas viaturas e me abordaram como suspeito. A vizinhança ficou assustada com um carro parado e chamou a polícia. Tive que ir embora, não tinha mais clima – lamentou.

Setembro: após tempestade, números mostram a bonança

Enquanto na linha histórica a escalada dos crimes de rua explica a sensação de insegurança, desde junho, segundo maior índice de roubos da série histórica do ISP, quando foram registrados 130, esses números estão caindo. Em julho foram registrados 87; em agosto, 75; já em setembro, apenas 22 registros, igualando a marca de fevereiro de 2003, o quarto mês com menos roubos, desde que esse tipo de pesquisa é realizada.
Para o comandante do 12º Batalhão de Polícia Militar (BPM), o tenente-coronel Márcio Guimarães, a Região Oceânica sofre com esse tipo de crime por conta de uma conjuntura de fatores sociais e até geográficos.

“Com a crise, agravou-se a disparidade social, grande motivador para esse tipo de crime contra o patrimônio”

– Com a crise, agravou-se a disparidade social, grande motivador para esse tipo de crime contra o patrimônio. Atrativo esse que existe na região por conta dos bairros de alto poder aquisitivo. Em levantamento recente, descobrimos que 40% desses criminosos são de outras cidades do Leste Fluminense. É geograficamente isolada também, por isso temos intensificado a presença da polícia nas ruas – explica ele.
A chamada Operação Presença, para o comandante é uma das grandes responsáveis pela redução da criminalidade. Além do repasse de 15 novas viaturas e regularização salarial, a prefeitura, através do Programa Estadual de Integração na Segurança Pública (Proeis) disponibilizou outras 15 viaturas e 50 agentes a mais por turno, pagos com dinheiro municipal.

Objetivo do 12º BPM é que nenhuma área fique sem a presença da polícia

Loja expõe ‘celulares de papel’ devido a assaltos constantes

Quem mora em Itaipu e nas imediações da Avenida Central certamente já deve ter ouvido ou recebido via aplicativo de mensagens a seguinte notícia: “Acabaram de assaltar a Americanas”. A loja da rede localizada na Avenida Central sofreu ataques tão frequentes de bandidos que, por um determinado período, retirou os aparelhos de celular – principal objeto de interesse dos assaltantes – do expositor que fica na frente do estabelecimento.
– Foram tantos assaltos que eu perdi a conta. Trabalho com medo – diz um funcionário que preferiu não se identificar.
No lugar dos celulares, reproduções em papel de cada modelo para os clientes escolherem.

Americanas da Avenida Central é alvo frequente de bandidos. Foto: Thiago Freitas / AFI

Crime é o encontro da vontade com oportunidade e impunidade

“Vivemos numa sociedade imediatista e no final das contas a culpa vai ser sempre da polícia (militar)”. E não é bem assim, pelo menos é o que explica o coronel Márcio Guimarães:
– O crime precisa de três circunstâncias básicas para existir: vontade, oportunidade e impunidade. O trabalho da PM é justamente suprimir esse segundo item, através do policiamento ostensivo.
Em entrevista à Folha Oceânica, o comandante disse acreditar que a origem da vontade em cometer é intensificada em cenários de crise, nos quais a disparidade social tende a se agravar também. Sem contar que mazelas no ceio familiar podem contribuir para perpetuação de um comportamento violento.
– Enquanto se discutir comportamento humano com maniqueísmo será enxugar gelo. Pessoas reagem de acordo com as circunstâncias às quais são submetidas. Eu pretendo ter meus policiais mais próximos da população para dar suporte a vítimas de violência para agir com mais eficácia na prevenção. No final das contas, o problema social vai acabar se encontrando com o estado como caso de polícia – explicou.

Comandante Márcio Guimarães.

 

Jornalista, cozinheiro, ciclista e viajante inveterado traz na bagagem a Região dos Lagos e passagens por A Tribuna e O Globo. Aos 28 anos, está prestes a completar a primeira década no jornalismo. Retrata a mobilidade e segurança pública sob uma nova perspectiva.

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