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OPINIÃO

No meio do caminho, tinha uma barca

No dia em que a vontade de mostrar para a cidade uma solução para a mobilidade, a empresa (CCR Barcas) mostrou que não hesita em se tornar parte do problema

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Na contramão da lógica intermodal, fundamental para a mobilidade urbana, a CCR Barcas chegou a ser vaiada por um grupo difuso de ciclistas que tentavam embarcar da Praça XV, no centro do Rio, rumo a Niterói para o evento de celebração do Dia Mundial Sem Carro, neste domingo (23). Eram cerca de 200 ciclistas de diversas partes da Região Metropolitana, mas encontraram na concessionária de transporte público resistência para as bicicletas ao modal aquaviário. Eles tentavam embarcar na viagem das 8h, a última que permitira a participação dessas pessoas no evento em Niterói, mas esbarraram na inflexibilidade operacional de praxe.

A situação gerou revolta, e os vigilantes e demais funcionários da estação não sabiam lidar com aquela situação atípica. Os ciclistas eram tratados como problema, enquanto o uso da bicicleta é tratado como solução nos países mais desenvolvidos do mundo. Das duas uma: ou a CCR Barcas não se importa com o ciclista ou com a mobilidade urbana, porque visivelmente não se preparou para transportar um extraordinário grupo de ciclistas, que tentavam chegar em um evento que mobilizou até a Polícia Federal, além de outras concessionárias de serviços relevantes à mobilidade urbana, como Ecoponte e Autopista Fluminense.

Talvez sensibilizados pelas vaias dos ciclistas à frente à estação, o Centro de Comando Operacional (CCO) da CCR Barcas resolveu o problema que tinha criado sozinha, com atraso de cerca de 30 minutos, tempo para decidirem internamente para fazer o óbvio: embarcar todos. A faísca de boa vontade do CCO parece não ter entrado a bordo. Diante da situação atípica, o comando da embarcação estava mais preocupado em ditar as restrições aos ciclistas embarcados do que uma solução propriamente dita para aquele grupo atípico, que se aglomerou por esbarrar no esquema especial de domingo, que conta com número reduzido de viagens por conta da baixa demanda. Na embarcação que contava com duas proas, a primeira ficou sobrecarregada, além dos corredores e até bancos, enquanto a proa que apontava para a Praça Arariboia, no centro de Niterói, foi mantida fechada, mesmo contando com dois bicicletários instalados recentemente em embarcações mais antigas de duas proas.

No dia em que a vontade de mostrar para a cidade uma solução para a mobilidade, a empresa (CCR Barcas) mostrou que não hesita em se tornar parte do problema

Ciclistas estão acostumados a pedras no meio do caminho, quebra-molas e a falta de respeito dos demais atores do trânsito rodoviário. No dia em que a vontade de mostrar para a cidade uma solução para a mobilidade, a empresa cuja obrigação legal é, em última instância, participar das soluções da mobilidade urbana de uma região que sofre com déficit de infraestrutura, mostrou que não hesita em se tornar parte do problema.

A assessoria de comunicação da CCR Barcas foi procurada para comentar o ocorrido, mas não respondeu.

Jornalista, cozinheiro, ciclista e viajante inveterado traz na bagagem a Região dos Lagos e passagens por A Tribuna e O Globo. Aos 28 anos, está prestes a completar a primeira década no jornalismo. Retrata a mobilidade e segurança pública sob uma nova perspectiva.

1 Comentário

1 Comment

  1. Denyze Guimarães Rocha

    26 de setembro de 2018 at 21:58

    Realmente é lamentável que uma empresa estabelecida na cidade há tantos anos não tenha capacitado seus funcionários para tal acontecimento.Até porque se trata de um ator de mobilidade urbana.
    Deveria no mínimo esta inteirada no assunto.

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