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Macaco: vítima da febre amarela e da ignorância humana Macaco: vítima da febre amarela e da ignorância humana

OPINIÃO

Macacos me leiam

Morte de macacos por ações humanas revela que a ignorância tem provocado inversões entre homens e primatas

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A falta do hábito da leitura e o desinteresse por conteúdos de qualidade que acomete grande parte da população brasileira está fabricando, acredito eu, uma geração com alto potencial para provocar catástrofes de proporções apocalíticas num futuro não muito distante. No estado do Rio de Janeiro, por exemplo, os macacos mortos por ações humanas revelam isso.

Por medo (ou por ignorância) de contaminação pelo vírus da febre amarela, um bando de “desinformados” foi responsável pela morte de mais de cem animais em território fluminense neste ano. Só na última segunda-feira (22/1), 18 primatas foram encontrados sem vida, com sinais de agressão e envenenamento. Em 2017, mais de 600 foram vítimas do que está sendo classificado por especialistas do Laboratório de Saúde Pública da Vigilância Sanitária do Município do Rio como um verdadeiro “massacre” desses animais, atingindo principalmente espécies como bugios, saguis e macacos-prego. Contudo, o laboratório também já recebeu dois cadáveres de micos-leões-dourados (espécie ameaçada de extinção) recolhidos nas imediações de Silva Jardim (RJ) com lesões características de agressões.

“O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.”
(Mario Quintana)

Por diversas vezes, os veículos de comunicação, assim como os órgãos governamentais e não governamentais (os de proteção animal) vêm divulgando informações, repetidamente, por meio de campanhas de conscientização acerca das formas de transmissão da doença. Vale lembrar: O MACACO NÃO TRANSMITE A FEBRE AMARELA PARA O HOMEM. Fui claro? Além disso, a pena prevista para quem mata macacos é de 6 meses a um ano de prisão mais multa.

“A morte desses seres inocentes sinaliza, a meu ver, o grau de acefalia a que se está chegando parte do povo brasileiro, cada vez mais acomodado e limitado a conteúdos superficiais, como vídeos engraçadinhos e memes compartilhados via redes sociais”

Da mesma forma são veiculadas também orientações sobre as áreas consideradas de risco, onde, de fato, a população necessita se imunizar com urgência. A despeito disso, uma Unidade Básica de Saúde (UBS), no Jardim Helena, Zona Leste da cidade de São Paulo, foi invadida por uma multidão na manhã de sexta (19). A região, conforme havia sido informado, não estava entre as áreas de urgência, tornando o desespero, mais uma vez, desnecessário.

A morte desses seres inocentes (os macacos), que involuntariamente alertam os pesquisadores sobre a circulação do vírus da febre amarela em sua forma silvestre nas regiões cercadas por mata, também sinaliza, a meu ver, o grau de acefalia a que se está chegando parte do povo brasileiro, cada vez mais acomodado e limitado a conteúdos superficiais, como vídeos engraçadinhos e memes compartilhados via redes sociais. Estamos nos tornando uma população de iletrados, de analfabetos funcionais ou coisa parecida. Pessoas sem hábito de leitura — nem sempre por mero desinteresse, visto que a maioria é vítima da conveniência de políticos que veem numa massa ignorante um terreno fértil para construção de currais eleitorais —, tornam-se incapazes de absorver informações de importância para convivência em sociedade — e com o meio ambiente. Na acepção da palavra, tornam-se seres (humanos?) perigosos. Animais sociais sem controle, disseminando caos e pânico por onde quer que transitem.

É mais que sabido que reverter esse quadro de “idiotização cultural” só é possível passando pela educação, setor cada vez mais abandonado em nosso estado falido e afundado no bolso de Cabrais e seus quadrilheiros. Por isso mesmo, temo cada vez mais o dia em que não mais poderemos nos tratar como iguais, ou seja, de humano para humano. Em vez disso, regressaremos há 4 milhões de anos e, novamente, estaremos subdivididos entre homo sapiens e — quem diria? — primatas.

Com a palavra, os macacos…

Jornalista, fotógrafo e escritor, 36 anos. Trabalhou nos jornais EXTRA e O GLOBO, tendo atuado também nos principais jornais do interior fluminense, como FOLHA DA MANHÃ, FOLHA DOS LAGOS e A VOZ DA SERRA. É autor do livro "Opinião e Crime – A história da prisão do jornalista Avelino Ferreira", publicado em 2013 pela Marka Editora.

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