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A gente faz

A cura além do invisível

Para superar depressão, roteirista ‘adota’ idoso de rua, em Itaipu, e pretende repetir ação com um sem-teto a cada mês

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Roosevelt em self com Francisco Assis, figura conhecida dos moradores do Maravista.

Roosevelt Soares tem 33 anos, é roteirista de cinema e há cinco anos luta contra uma depressão crônica. Na sua lista de medicamentos entre os quais busca uma cura para a doença, decidiu incluir recentemente um remédio, digamos, alternativo, mas que vem apresentando resultados, e não só para ele: a caridade. Morador do loteamento Maravista, em Itaipu, ele “adotou”, desde o início de dezembro, um senhor em situação de rua já conhecido pela população local, comumente visto pela Avenida Ewerton Xavier (antiga Av. Central). E segundo Roosevelt, a ideia é não parar por aí. Seu objetivo é fazer o mesmo com outras pessoas na mesma condição, adotando um novo morador de rua a cada mês:

— O seu Francisco sempre me despertou uma curiosidade que acredito ser comum a todos que o veem pelas ruas do bairro: qual seria a sua história?

Para responder a essa e outras perguntas, Roosevelt decidiu se aproximar do senhor de 62 (idade ainda não confirmada), cujo nome de batismo diz ser Francisco Assis Mattos. Uma vez conquistada sua confiança, o roteirista propôs gravar um vídeo no qual o idoso pudesse contar um pouco da sua origem e falar de seus sonhos e necessidades.

— Ele tem um diferencial que é o fato de gostar de escrever e de livros. Inclusive gosta de CDs de curso de inglês, além de filmes. Uma das condições dele para nossa conversa foi que eu arrumasse para ele um discman, para que pudesse ouvir os CDs dos cursos, e uma Fanta Uva — relembra Roosevelt, revelando que uma de suas vontades é transformar os escritos de Francisco em livros de cordel: — Seria uma forma de criar uma renda para ele — complementa.

A postagem do vídeo no Facebook mobilizou diversas pessoas em poucos dias. Tanto que no dia 24, véspera de Natal, Roosevelt entregou ao seu apadrinhado uma série de donativos: rádio, DVD portátil, filmes, comida, saco de dormir, mochila com produtos para higiene e, claro, o discman.

— O depoimento gravado foi uma forma de dar voz a quem não é ouvido ou sequer visto a partir da minha voz. Normalmente a sociedade não enxerga a história por trás desses seres que transitam quase invisíveis entre nós — afirma.

Em seu projeto pessoal, Roosevelt pretende se valer da ajuda de um coletivo de pessoas para dar a esses assistidos autonomia de vida, buscando auxiliá-los num caminho de reinserção na sociedade. Para o senhor Francisco, por exemplo, o roteirista está em busca de dispositivos jurídicos para que ele possa acessar direitos como o recebimento de um salário mínimo por mês via Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS).

“Já tentei suicídio nove vezes e de várias formas (…) Ajudar essas pessoas, hoje, tem sido, na verdade, a melhor forma de me tratar”

 

Ajudar(-se): uma via de mão dupla  

Para Roosevelt, ajudar o próximo tem sido uma forma de dar sentido à própria vida, já que o sentimento provocado pela depressão é justamente a sensação de falta de sentido para tudo. Além disso, o rapaz conta que muitas vezes, ao ver pessoas morando na rua e analisar sua própria história, via-se no lugar delas:

— Sempre pensei que um dia pode ser eu no lugar dessas pessoas. Falo com a experiência de quem já foi ao fundo do poço e saiu. Já tentei suicídio nove vezes e de várias formas. Há cinco anos eu decidi realmente aceitar o tratamento, fazendo análise, tomando medicamento. Mas ajudar essas pessoas, hoje, tem sido, na verdade, a melhor forma de me tratar.

Roosevelt conta ainda que a vontade de mudar a vida de pessoas como Francisco já o acompanha desde criança. Contudo, nunca havia conseguido definir em seu interior a melhor forma de fazer isso. Leu diversos artigos a respeito do tema, muitos falando da criação de maior dependência da população em situação de rua ao receber esmolas ou doações. “Muitos especialistas defendem que isso incentiva essa população a se manter na rua, numa condição de comodismo”, pondera.

Ele, no entanto, defende que a criação de vínculos afetivos é essencial para que se gere confiança e, com isso, seja mais fácil conduzir essas pessoas pelo caminho da reinserção social, seja reintegrando-as à família, seja conseguindo atendimento via abrigos ou, simplesmente, dando a máxima autonomia para que elas possam conseguir trabalho e, com isso, o próprio sustento e um novo lar.

— É um processo de empoderamento o que pretendo construir com eles. Muitos precisam, por exemplo, de tirar a segunda via de documentos. E existe uma burocracia a ser enfrentada. Os abrigos da cidade não têm vagas para idosos, porque eles são mais trabalhosos, exigem mais cuidado. Contudo eles podem recorrer ao direito do salário mínimo. Estou contando com a parceria de amigos advogados para cuidar disso, além da orientação do CRAS de Itaipu e da Pastoral de Assis, embora o trabalho não tenha nenhuma ligação nem com órgãos governamentais nem com instituições religiosas. Apenas com pessoas dispostas a colaborar. Espero no futuro formar um coletivo de pessoas que queiram topar essa briga. Afinal, ninguém está livre de estar um dia no lugar deles — ressaltou.

 

Caminhos do voluntariado

Para tentar achar a família do senhor Francisco — ele conta que não a vê há 59 anos e que está nas ruas há 15 —, Roosevelt vem utilizando ferramentas como redes sociais. Um dos links é a página do Facebook “Busco Minha Família – Trabalho Voluntário“.

Entre os trabalhos do qual também participa como voluntário, Roosevelt destaca a ONG Teto Brasil, uma organização com atuação em toda América Latina e que constrói casas de emergência, um modelo pré-fabricado em madeira, aprovado e indicado pela ONU.

— São construções realizadas em áreas de extrema vulnerabilidade social, como o Jardim Gramacho, da qual eu participei — explica.

Quem tiver interesse em iniciar 2018 aderindo a algum trabalho voluntário pode entrar em contato pelo e-mail rooseveltsoares@hotmail.com, Facebook ou WhatsApp (21) 98878-3144.

Roosevelt Soares. "Fui ao fundo do poço e voltei. Sempre pensei que um dia pode ser eu no lugar dessas pessoas". Foto: Thiago Freitas

Roosevelt Soares. “Fui ao fundo do poço e voltei. Sempre pensei que um dia pode ser eu no lugar dessas pessoas”. Foto: Thiago Freitas

Jornalista, fotógrafo e escritor, 35 anos. Trabalhou nos jornais EXTRA e O GLOBO, tendo atuado também nos principais jornais do interior fluminense, como FOLHA DA MANHÃ, FOLHA DOS LAGOS e A VOZ DA SERRA. É autor do livro "Opinião e Crime – A história da prisão do jornalista Avelino Ferreira", publicado em 2013 pela Marka Editora.

3 Comentários

3 Comments

  1. Kassia

    13 de Janeiro de 2018 at 12:23

    Gostaria de contribuir com uma informação, se ele não tiver 65 anos ele ainda não consegue o BPC/LOAS pelo fato de ser idoso, mas vcs podem fazer uma avaliação pela saúde mental e pleitear o BPC por conta do transtorno mental (não o conheço mas relatam que ele tem).

    • Redação Folha

      13 de Janeiro de 2018 at 12:30

      Grato pela informação, Kassia. Na verdade a idade dele ainda necessita ser confirmada, o que só será possível quando o Roosevelt, que o ajuda, conseguir tirar a segunda via dos documentos dele. Bem-vinda à Folha. Contamos com a participação dos nossos leitores para construirmos um jornalismo cada vez mais colaborativo.

  2. Aislan Melo

    14 de Janeiro de 2018 at 21:30

    Que bela ação! Não existe nada mais terapêutico que se abrir a dor do outro. Que ele possa continuar sendo inspirado por essas ações, que possa inspirar mais pessoas, e que as pessoas em situação de rua possam ser sempre acolhidas assim.

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